sábado, 17 de fevereiro de 2007
A depressão de Fevereiro
Desconheço a razão que explica isto, mas não há ano em que me lembro de gostar de passar o mês de Fevereiro. Habitualmente, é o mês mais azarado do ano, em que tudo o que pode correr mal, corre mal, e o que ninguém suspeita que possa descarrilar, pifa. Isto de ser um enrascado e um teso cruzado com o pico do Inverno e a chuvinha e o frio macilento tem os seus efeitos de série de comédia americana.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
Diz que é uma espécie de crítica social
O apoio do Ricardo Araújo Pereira e do restante elenco do Gato Fedorento à causa da despenalização da IVG era conhecido. Sabíamos também que a sua comédia de costumes roçava a crítica social, ou fazia-na abertamente. Mas, nesta campanha, o seu sketch ácido sobre a proposta de Marcelo Rebelo de Sousa para resolver o problema jurídico da IVG escancarou as portas da política portuguesa à intervenção directa do humor televisivo, desmontando em dois minutos brilhantes o que leva horas a explicar em debates.
O real impacto deste momento televisivo na campanha está por calcular, mas serviu pelo menos para pôr a rir a bandeiras despregadas um país inteiro excessivamente emocionado com este tema. Ainda por lá apareceu um jovem Diácono Remédios a impor a censura na sua exigência do “contraditório” e outras polémicas se seguiram. Mas esses são ossos do ofício de um humor lúcido de espírito livre. Diz que a inteligência nos faz sorrir.
O real impacto deste momento televisivo na campanha está por calcular, mas serviu pelo menos para pôr a rir a bandeiras despregadas um país inteiro excessivamente emocionado com este tema. Ainda por lá apareceu um jovem Diácono Remédios a impor a censura na sua exigência do “contraditório” e outras polémicas se seguiram. Mas esses são ossos do ofício de um humor lúcido de espírito livre. Diz que a inteligência nos faz sorrir.
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Namorados somos todos os dias
O Dia dos Namorados é uma seca para toda a gente. Os que namoram vêem-se na obrigação de cumprir os rituais que lhes mandam cumprir o mercado, os mecanismos de incentivo ao consumo e outras americanices. E as namoradas, claro, que alinham nisso, completamente. Os que não namoram são acometidos de uma febre insuportável, típica de quem não namora e já não se lembra bem de tudo o que isso implica... Ver os outros a desenrolar o papel de ver e ser vistos, numa competição horrorosa de amorzinhos e florzinhas e abracinhos e miminhos fá-los rebentar de raiva e inveja. Não é que se queira realmente fazer aquilo. É que chateia estar expulso da competição, desclassificado por falta de comparência.
Eu também cumpro alguns dos rituais não neste dia, mas de vez em quando. Mas isso é porque a Dora é uma típica mediterrânica - insuficientemente individualista para se estar a marimbar para isso, demasiado explosiva para eu me arriscar a fracassar. Eu, evidentemente, tenho medo. E quanto mais namoro, melhor a conheço - cresce o pavor! Não é bem que ela me agrida, mas qual é o homem que tem coragem de enfrentar aqueles olhares de reprovação feminina?
Eu, claro, fracasso muitas vezes, mesmo quando fiz tudo correcto. Outra coisa não seria de esperar. A única forma de sobreviver é manter esta sedução permanente, um sorriso malandro - pode ser que me escape!, pode ser que me perdoe! Inventamos uns rituais de sobrevivência conjugal, para não sacrificarmos de vez o mau feitio de cada um, que tanto prezamos. O Dia dos Namorados cá em casa é todos os dias. Mas agora é tarde. Já me viciei nisto. E até gosto!
Eu também cumpro alguns dos rituais não neste dia, mas de vez em quando. Mas isso é porque a Dora é uma típica mediterrânica - insuficientemente individualista para se estar a marimbar para isso, demasiado explosiva para eu me arriscar a fracassar. Eu, evidentemente, tenho medo. E quanto mais namoro, melhor a conheço - cresce o pavor! Não é bem que ela me agrida, mas qual é o homem que tem coragem de enfrentar aqueles olhares de reprovação feminina?
Eu, claro, fracasso muitas vezes, mesmo quando fiz tudo correcto. Outra coisa não seria de esperar. A única forma de sobreviver é manter esta sedução permanente, um sorriso malandro - pode ser que me escape!, pode ser que me perdoe! Inventamos uns rituais de sobrevivência conjugal, para não sacrificarmos de vez o mau feitio de cada um, que tanto prezamos. O Dia dos Namorados cá em casa é todos os dias. Mas agora é tarde. Já me viciei nisto. E até gosto!
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
Um esforço de racionalidade
No dia 11 de Fevereiro, a julgar pelas intervenções sobre os resultados do referendo à interrupção voluntária da gravidez (IVG), dir-se-ia que o país tinha dado um salto civilizacional ou em frente, ou para trás, consoante os alinhamentos políticos. Emoções daquela noite à parte, interessa analisar os argumentos desta campanha, os seus resultados e as suas inevitáveis repercussões.
Duas fortes tendências emotivas condicionaram o debate. De um lado, a argumentação resvalou para a concepção da vida humana, com um uso intensivo de palavras como criança e bebé, misturando a noção de vida com a de ser humano. Esta noção absolutista da ideia de vida obriga a uma escolha emocionada entre o potencial egoísmo da mãe e a protecção do bebé e lança um profundo estigma sobre o recurso à IVG. Esta linha de pensamento impede uma relativização dos direitos de células ou de um embrião face aos direitos de uma mulher e, em última análise, qualquer possibilidade de recurso à IVG, mas obrigou o sector do Sim a, num esforço de racionalidade, explicar toda a diferença entre um recém-nascido e um ovo fecundado ou uma vida em formação.
Do outro lado, a discussão concentrou-se demasiado na questão jurídica, recordando os tristes episódios do julgamento de mulheres pela prática do aborto clandestino. Centrar o debate neste problema importante é obrigar a uma escolha comovida entre a mulher-criminosa e a mulher-despenalizada. O embaraço do lado do Não foi evidente, com pessoas como Marcelo Rebelo de Sousa a propor todo o tipo de alternativas impensáveis, desde a manutenção da lei mas retirando as condições para a sua aplicação, à aplicação de penas diferentes, mantendo a mancha da desaprovação social sobre a IVG. Estratégias de campanha à parte, não me parecem ser estas as questões principais.
O campo dos direitos das mulheres, do exercício do domínio sobre o seu corpo e a sua sexualidade e da afirmação do princípio do direito de escolha da mulher sobre o momento e as condições para a sua maternidade foram empurrados para fora do debate sobre a IVG. Estes temas, embora implícitos no debate e na pergunta referendada, foram cautelosamente evitados pelos defensores do Sim, por serem considerados polémicos e menos mobilizadores. Esta ausência poderá ter auxiliado a vitória do Sim, mas trará dificuldades à manutenção da regulação tal como ela foi aprovada pelos portugueses.
Na verdade, foram vários os elementos que auxiliaram a vitória do Sim neste referendo, para além da suavização da campanha e do envolvimento dos movimentos cívicos. Contam-se entre estes a posição mais afirmativa por parte do PS e a hesitação do PSD (um cenário exactamente oposto ao de 1998), o impacto dos julgamentos de mulheres na consciência pública, o aumento do votação (e sobretudo da votação urbana e jovem), a entrada em cena de médicos pelo lado do Sim e a afirmação de uma linha de debate centrada na saúde reprodutiva da mulher. O próprio humor televisivo pode ter tido um efeito positivo.
As votações traduzem evoluções interessantes. O Não sofreu um acantonamento: a sua área de influência ideológica não saiu da esfera da Direita e dos sectores católicos conservadores, geograficamente ficou-se pelo norte (Minho, Aveiro), interior (Beira Alta, Trás-os-Montes e Alto Douro) e Regiões Autónomas e os seus apoios aumentaram muito pouco num cenário de redução da abstenção. O Sim teve um movimento contrário, penetrando em parte do eleitorado da Direita e no voto católico, rompendo a anterior barreira geográfica do Tejo, ganhando todo o Sul e quase todo o centro e litoral continental, dominando a maioria dos grandes centros urbanos e aumentando num milhão o número dos apoiantes da despenalização da IVG.
A outra leitura é a clara regressão da influência da Igreja na sociedade portuguesa no domínio das mentalidades. Apesar do envolvimento da Igreja e das suas organizações, criou-se na mentalidade dos católicos a distinção racional entre a questão ética da prática do aborto e o problema jurídico da condenação da sua prática. Esta separação entre a ordem moral da Igreja e a razão legal do Estado foi posta em causa várias vezes durante a campanha e não é seguro que se mantenha sempre na mente dos portugueses.
Nos países que desde há cinquenta anos têm vindo a aplicar a despenalização do aborto, inclusivamente nos que têm hoje uma prática absolutamente consolidada, a introdução destas medidas foi acompanhada pelo surgimento de movimentos de cidadãos ligados a partidos e organizações religiosas extremamente activos, que procuram eliminar a IVG por opção da mulher nessas sociedades. Esses movimentos conseguem alargar a sua implantação junto das populações desses países e influenciar com sucesso decisores e discursos políticos. Coisa diferente não será de esperar em Portugal, até porque os movimentos o prometeram na noite do referendo e já deram provas dessa intenção. A recente exigência de incluir na lei um aconselhamento obrigatório da mulher que se decide pela IVG foi já a primeira tentativa de incluir na lei o que perdeu nas votações, recusando o reconhecimento da autonomia e capacidade de decisão da mulher.
Ora, durante anos, a proibição da IVG e a necessidade de recurso ao aborto clandestino colocou a saúde sexual e reprodutiva das mulheres em situações diferentes, em função das suas origens e condições socio-económicas, é sabido. Mas colocou-as também em posições diferentes no que diz respeito ao efectivo controlo sobre o seu corpo e à escolha do momento da sua maternidade. Este aspecto não foi devidamente abordado, por estratégia de campanha e receio de acusação da promoção do aborto. Era essencial desenvolver esta área do debate sem receios, fazendo um esforço de racionalidade que fosse além da vitória imediata do referendo, antes garantindo a abertura da mentalidade portuguesa para este tema. Insistindo na despenalização jurídica ou na preocupação assistencial com a fragilidade social de algumas mulheres, não se valorizou a mulher como ser consciente e responsável, capaz de tomar uma decisão desta natureza.
O estigma que resulta daqui há-de pesar na sociedade portuguesa durante muitos anos, abrindo espaço à inibição se não da prática da IVG a pedido da mulher, pelo menos da aceitação social da sua prática nessas condições. As recentes iniciativas dos partidários do Não decorrem no espaço político deixado por não se ter travado uma batalha mais ideológica sobre o papel e a autonomia da mulher na sociedade, por não ter sido absolutamente afirmada a sua capacidade de decidir, a sua responsabilidade individual. Aliviada a consciência pública com o afastamento dos julgamentos, a “escolha da mulher” sai ainda condenada. É por isso que despenalizar a IVG é apenas o primeiro passo. Vai ser preciso continuar a fazer um esforço de racionalidade.
Duas fortes tendências emotivas condicionaram o debate. De um lado, a argumentação resvalou para a concepção da vida humana, com um uso intensivo de palavras como criança e bebé, misturando a noção de vida com a de ser humano. Esta noção absolutista da ideia de vida obriga a uma escolha emocionada entre o potencial egoísmo da mãe e a protecção do bebé e lança um profundo estigma sobre o recurso à IVG. Esta linha de pensamento impede uma relativização dos direitos de células ou de um embrião face aos direitos de uma mulher e, em última análise, qualquer possibilidade de recurso à IVG, mas obrigou o sector do Sim a, num esforço de racionalidade, explicar toda a diferença entre um recém-nascido e um ovo fecundado ou uma vida em formação.
Do outro lado, a discussão concentrou-se demasiado na questão jurídica, recordando os tristes episódios do julgamento de mulheres pela prática do aborto clandestino. Centrar o debate neste problema importante é obrigar a uma escolha comovida entre a mulher-criminosa e a mulher-despenalizada. O embaraço do lado do Não foi evidente, com pessoas como Marcelo Rebelo de Sousa a propor todo o tipo de alternativas impensáveis, desde a manutenção da lei mas retirando as condições para a sua aplicação, à aplicação de penas diferentes, mantendo a mancha da desaprovação social sobre a IVG. Estratégias de campanha à parte, não me parecem ser estas as questões principais.
O campo dos direitos das mulheres, do exercício do domínio sobre o seu corpo e a sua sexualidade e da afirmação do princípio do direito de escolha da mulher sobre o momento e as condições para a sua maternidade foram empurrados para fora do debate sobre a IVG. Estes temas, embora implícitos no debate e na pergunta referendada, foram cautelosamente evitados pelos defensores do Sim, por serem considerados polémicos e menos mobilizadores. Esta ausência poderá ter auxiliado a vitória do Sim, mas trará dificuldades à manutenção da regulação tal como ela foi aprovada pelos portugueses.
Na verdade, foram vários os elementos que auxiliaram a vitória do Sim neste referendo, para além da suavização da campanha e do envolvimento dos movimentos cívicos. Contam-se entre estes a posição mais afirmativa por parte do PS e a hesitação do PSD (um cenário exactamente oposto ao de 1998), o impacto dos julgamentos de mulheres na consciência pública, o aumento do votação (e sobretudo da votação urbana e jovem), a entrada em cena de médicos pelo lado do Sim e a afirmação de uma linha de debate centrada na saúde reprodutiva da mulher. O próprio humor televisivo pode ter tido um efeito positivo.
As votações traduzem evoluções interessantes. O Não sofreu um acantonamento: a sua área de influência ideológica não saiu da esfera da Direita e dos sectores católicos conservadores, geograficamente ficou-se pelo norte (Minho, Aveiro), interior (Beira Alta, Trás-os-Montes e Alto Douro) e Regiões Autónomas e os seus apoios aumentaram muito pouco num cenário de redução da abstenção. O Sim teve um movimento contrário, penetrando em parte do eleitorado da Direita e no voto católico, rompendo a anterior barreira geográfica do Tejo, ganhando todo o Sul e quase todo o centro e litoral continental, dominando a maioria dos grandes centros urbanos e aumentando num milhão o número dos apoiantes da despenalização da IVG.
A outra leitura é a clara regressão da influência da Igreja na sociedade portuguesa no domínio das mentalidades. Apesar do envolvimento da Igreja e das suas organizações, criou-se na mentalidade dos católicos a distinção racional entre a questão ética da prática do aborto e o problema jurídico da condenação da sua prática. Esta separação entre a ordem moral da Igreja e a razão legal do Estado foi posta em causa várias vezes durante a campanha e não é seguro que se mantenha sempre na mente dos portugueses.
Nos países que desde há cinquenta anos têm vindo a aplicar a despenalização do aborto, inclusivamente nos que têm hoje uma prática absolutamente consolidada, a introdução destas medidas foi acompanhada pelo surgimento de movimentos de cidadãos ligados a partidos e organizações religiosas extremamente activos, que procuram eliminar a IVG por opção da mulher nessas sociedades. Esses movimentos conseguem alargar a sua implantação junto das populações desses países e influenciar com sucesso decisores e discursos políticos. Coisa diferente não será de esperar em Portugal, até porque os movimentos o prometeram na noite do referendo e já deram provas dessa intenção. A recente exigência de incluir na lei um aconselhamento obrigatório da mulher que se decide pela IVG foi já a primeira tentativa de incluir na lei o que perdeu nas votações, recusando o reconhecimento da autonomia e capacidade de decisão da mulher.
Ora, durante anos, a proibição da IVG e a necessidade de recurso ao aborto clandestino colocou a saúde sexual e reprodutiva das mulheres em situações diferentes, em função das suas origens e condições socio-económicas, é sabido. Mas colocou-as também em posições diferentes no que diz respeito ao efectivo controlo sobre o seu corpo e à escolha do momento da sua maternidade. Este aspecto não foi devidamente abordado, por estratégia de campanha e receio de acusação da promoção do aborto. Era essencial desenvolver esta área do debate sem receios, fazendo um esforço de racionalidade que fosse além da vitória imediata do referendo, antes garantindo a abertura da mentalidade portuguesa para este tema. Insistindo na despenalização jurídica ou na preocupação assistencial com a fragilidade social de algumas mulheres, não se valorizou a mulher como ser consciente e responsável, capaz de tomar uma decisão desta natureza.
O estigma que resulta daqui há-de pesar na sociedade portuguesa durante muitos anos, abrindo espaço à inibição se não da prática da IVG a pedido da mulher, pelo menos da aceitação social da sua prática nessas condições. As recentes iniciativas dos partidários do Não decorrem no espaço político deixado por não se ter travado uma batalha mais ideológica sobre o papel e a autonomia da mulher na sociedade, por não ter sido absolutamente afirmada a sua capacidade de decidir, a sua responsabilidade individual. Aliviada a consciência pública com o afastamento dos julgamentos, a “escolha da mulher” sai ainda condenada. É por isso que despenalizar a IVG é apenas o primeiro passo. Vai ser preciso continuar a fazer um esforço de racionalidade.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
Guilherme
Nasceu-me um filho. Chama-se Guilherme e é o rapaz mais sôfrego de vida e mais bonito do mundo. Há-de ser sempre o mais do mundo em qualquer outra qualidade. Não é por ser meu filho e eu ser pai dele. É porque eu sou um bom ajuizador de carácteres e adivinho já o que vou ajuizar no futuro. Sem favoritismos, cunhas ou tentações de ver nele continuações do meu ser. Ele nasceu já com demasiada vontade própria para eu supor essa continuação, há-de me dizer não muitas vezes. E nisso ele é bastante parecido comigo.
Nasceu um rapaz e chama-se Guilherme. Eu vi-o nascer e nesse momento nascemos os dois para um outro mundo. Uma alegria breve, depois um pânico com todas as pequenas coisas e erros e tropeções que inevitavelmente faremos e de que inevitavelmente me arrependerei, mesmo dizendo que não. Não é extraordinário, isto que acontece todos os dias?
Nasceu um rapaz e chama-se Guilherme. Eu vi-o nascer e nesse momento nascemos os dois para um outro mundo. Uma alegria breve, depois um pânico com todas as pequenas coisas e erros e tropeções que inevitavelmente faremos e de que inevitavelmente me arrependerei, mesmo dizendo que não. Não é extraordinário, isto que acontece todos os dias?
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